segunda-feira, 27 de julho de 2026

Wladyslawa e Marmarduk



 O silêncio do apartamento 302 tinha o peso de um século. Wladyslawa olhava pro teto, onde as sombras da noite dançavam conforme a luz dos carros passavam pela avenida próxima. Aos 93 anos, o corpo já não te obedece. A engrenagem gasta foi abandonada pelo maquinista. Um relógio analógico na cozinha, tinha um tique-taque insistente, parecia contar os grãos de areia que restavam na sua ampulheta particular. Wladyslawa tinha uma certeza: estava morrendo. Não havia pânico, não havia o menor impulso de gritar por ajuda, só uma lucidez gelada. Pois, em sua cabeça, ela percebeu, há muito tempo, a sua sutil transformação de pessoa em "problema".

No mundo lá fora, a engrenagem da produção exige velocidade, dentes afiados e juventude. Quem não produz, consome, e quem não serve, atrapalha. Seus filhos haviam se transformado em vozes raras e apressadas ao telefone, os netos eram rostos congelados e pendurados na parede. Ela era uma sombra que ainda ocupava os caros metros quadrados em uma metrópole que não tem tempo para a lentidão. A escuridão do quarto era um ensaio geral para o esquecimento definitivo. Resignada, ela fechou os olhos, aceitando o vácuo absoluto da solidão.

— O peso do mundo fica mais leve quando você desiste de carregar, Wladyslawa.

A voz não ecoou pelas paredes. Nasceu dentro do próprio silêncio. Wladyslawa abriu os olhos com esforço. Sentado na poltrona de veludo desbotado, vazia há anos, estava algo que imitava a forma de um ser humano. Sua silhueta era feita de uma penumbra densa, mas o olhos guardavam o brilho morno de velas acesas. A figura emanava uma gravidade antiga, como se testemunhasse o tempo desde o primeiro sopro.

— Quem é você? — a voz dela saiu como um sussurro seco, quase sem ar. — Como entrou aqui?

— Chame-me de Marmarduk — o ser respondeu, inclinando levemente sua forma. — Posso ser um anjo se você quiser.

Wladyslawa soltou um riso fraco, que terminou em uma tosse que parecia puxar do coração ao vão da garganta.

— Um anjo? Veio tarde. Meu apartamento está escuro, minha geladeira está vazia e eu já parei de importar para qualquer alma viva faz uns dez anos, pelo menos. Se veio me julgar, saiba que já fui condenada ao esquecimento muito antes de você chegar. Não sou mais útil pra ninguém.

Marmarduk aproximou-se da beira da cama, sem fazer o menor ruído sobre o taco de madeira roído pelos cupins.

— Utilidade é ilusão dos homens, Wladyslawa. Uma moeda barata inventada por quem acredita que a vida é um comércio, e que não sabe a diferença entre gente e coisa. Quem mede o valor de alguém pelo que pode construir ou entregar, esquecendo que a colheita só existe porque a terra, no seu de descanso, apenas aceita o inverno. Você passou décadas plantando, cuidando e existindo. Por que exigir de si frutos se o outono já passou?

— Porque dói não ser vista — confessou ela, e uma única lágrima, quente e pesada, parou no meio das rugas profundas de sua face, sem descer adiante.

 — Morrer na escuridão, sabendo que amanhã vou ser apenas um inventário pra quem fica... É a minha história inteira apagada antes mesmo do fim.

Marmarduk emitia um brilho dourado. Não a tocava fisicamente, mas Wladyslawa sentiu uma onda de calor envolver seus dedos frios.

— Nada que foi vivo se apaga — disse a aparição, com uma solenidade que acalmou o peito disparado da anciã. 

— O universo não descarta a memória de uma folha que cai, muito menos a de uma vida inteira. As mentes pequenas e cheias de ruído correm contra o tempo porque têm medo dele. Mas você, Wladyslawa, você venceu. A solidão que sente agora não é castigo: é o silêncio necessário para deixar o barulho do mundo por aqui mesmo.

— E o que fica quando o barulho acaba? — perguntou ela, sentindo o peso das pálpebras aumentar, o corpo ficando estranhamente leve.

— Fica a verdade — Marmarduk sussurrou, num vento morno. 

— Você não é o que produziu. Nem é a atenção que te foi dada ou negada. Você é a própria vida que experimentou através desse aparelho por noventa e três anos. Dor, sorriso, agora e na mocidade, as lágrima nesse quarto escuro... tudo isso é uma canção única. As cortinas estão caindo, minha amiga. É hora de agradecer aos músicos e deixar o teatro.

As palavras de Marmarduk foram um bálsamo. Toda a rejeição e o peso de ser considerada um estorvo sumiram, esvaziados de qualquer sentido diante da imensidão daquelas ideias. A utilidade terrena e tudo o que é sério nesse mundo pareciam agora uma bobagem infantil, frente a algo desconhecido pela frente.

 Wladyslawa percebeu que não precisava do perdão de mundo que não entende nem a si mesmo.

— Estou pronta? — indagou ela ao nada, mais do que ao próprio anjo.

— Você sempre esteve — respondeu Marmarduk, fundindo-se novamente à escuridão do quarto. 

— Apenas inspire e solte.

 Wladyslawa obedeceu. Sentiu o aroma antigo dos seus móveis pela última vez, as memórias guardadas nas paredes, e o rastro suave da presença daquela criatura. Ao expirar, não sentiu dor, nem o horror do abismo, não ouviu trombetas, nem viu nenhum portão dourado sobre as nuvens. Ninguém sabe se seus olhos se abriram em um jardim florido, ou numa nova dimensão ou se tudo apenas afundou no repouso absoluto do nada. O que aconteceu foi o fim do próprio espaço e do próprio tempo. Chega para todo mundo. Só uma paz inabalável se estendeu sobre tudo o que Wladyslawa foi, envolvendo-a em um manto eterno onde o verbo "precisar" não fazia mais sentido.

quarta-feira, 22 de julho de 2026

Filomena e O Anão Cis


   
 

O centro da cidade funciona como uma máquina de moer diferenças. Tudo nele foi desenhado para um corpo padrão: a altura dos degraus dos ônibus, o tempo do semáforo de pedestres e a pressa cega de quem caminha olhando para o celular. Quem não se encaixa nessa engrenagem precisa inventar a própria física para sobreviver, e foi nessa busca por espaço que os caminhos de Filomena e Cis se cruzaram.

    Filomena é uma mulher trans que carrega na pele a imponência de quase um metro e oitenta de altura. Ela tem a voz firme de quem precisou gritar muito para que o mundo a enxergasse como é. Cis, cujo nome de batismo é Francisco, é um homem com nanismo que mede um metro e vinte. O apelido "Cis" nasceu na faculdade de TI. Uma ironia fina dos colegas pelo fato de ele ser o único homem cisgênero e heterossexual em um coletivo de estudantes engajados na luta por igualdade. Ele adotou o nome com orgulho: achava o contraste poético.
    Naquela quarta-feira de julho, os dois decidiram almoçar em um restaurante por quilo recém-inaugurado numa avenida principal. Aquilo que era ser apenas uma pausa na rotina do escritório virou um manifesto silencioso contra o preconceito.

    O primeiro obstáculo do restaurante não foi o cardápio, mas a sua própria estrutura. O balcão, onde ficavam as balanças e o caixa, era uma imensa bancada de granito alto. Para Cis, o topo da estrutura ficava exatamente na linha de sua testa.

Ao chegar a sua vez na fila, o funcionário do caixa simplesmente não o viu. Olhou por cima da cabeça de Cis, buscando o próximo cliente "válido" na fila.
— Próximo, por favor — disse o atendente, impaciente.
— Sou eu — respondeu Cis, esticando o braço com o prato.
    O funcionário deu um passo para trás, assustado, e imediatamente mudou de postura. O olhar dele, antes indiferente, transformou-se em um sorriso infantilizado e condescendente. É o capacitismo automático, que ninguém percebe: tratar o adulto com deficiência como se fosse uma criança incapaz. O atendente ignorou a voz de Cis e direcionou a pergunta a Filomena, que vinha logo atrás.
— O prato dele é pesado junto com o seu, senhora? — perguntou, tentando encontrar um "responsável".
    Filomena conhecia bem as táticas da exclusão. A sociedade adora retirar a autonomia de quem foge à norma. Ela deu um passo para trás, cruzou os braços e recusou-se a ser a intermediária daquela invisibilidade.
— O prato é dele. E ele sabe falar — disse Filomena. Sua voz, com um timbre que o preconceito alheio teimava em patrulhar por não soar "feminino", ecoou pelo recinto.
    O funcionário engoliu em seco. O constrangimento mudou de endereço. Cis colocou o cartão na máquina com a calma de quem já domina o território da própria dignidade.
    Eles escolheram uma mesa perto da janela. O preconceito, quando não consegue erguer barreiras físicas, faz seus muros com os olhos. Nas mesas vizinhas, o ritmo dos garfos diminuiu.
    Dois homens de terno em uma mesa corporativa cutucaram-se mutuamente. Risinhos abafados e sussurros nítidos cruzaram o ar: "Olha lá a dupla...". Para aquela plateia improvisada, Filomena era o "homem de vestido" e Cis era a "comédia".
    A transfobia e o capacitismo operam pela mesma lógica perversa: a definição de que existe um corpo "correto" e que qualquer desvio dessa rota é uma anomalia se tolera como piada. Eles punem a existência pública de quem não se esconde.
    Filomena sentiu o peso dos olhares e a espinha enrijecer. Era o mesmo desconforto que sentia ao apresentar o documento de identidade em guichês públicos e ver a hesitação maldosa nos olhos das pessoas. Ela baixou os olhos para o prato, os ombros ameaçando curvar-se sob o peso do julgamento.
   Cis percebeu. Ele largou o garfo, olhou fixamente para Filomena e disse, sem baixar o tom de voz:
— Filomena, a linha de visão dessa gente é rasteira. Eles precisam olhar para cima para enxergar os nossos sapatos. Não se curve pra caber no teto baixo da ignorância.
    Filomena respirou fundo. O ar voltou aos pulmões. Ela ajeitou a postura, ergueu o queixo e sorriu de volta para Cis. Eles continuaram o almoço, conversando sobre prazos de entrega e códigos de programação, ocupando o espaço pelo qual pagaram para estar.
    Saindo do restaurante, a calçada do centro continuava rachada e os pedestres continuavam correndo. Filomena e Cis caminhavam no passo dele, sem pressa, dividindo o espaço de igual para igual.